“Algumas
pessoas ficam bastante surpresos quando dizemos que fomos nós que desenhamos
tais obras”, diz Elizabete. “Tenho um quadro em casa, que muitos duvidam que
foi eu que desenhei e pintei. Quando me olham, aí que não acreditam mesmo, acho
que é por causa do meu tamanho”, fala Suame com um sorriso. “Alguns ainda dizem:
‘É
sério mesmo que foi tu que desenhou?’”, diz Sônia quando olham suas obras.
POR: JOSÉ BRILHANTE
Artistas da esquerda para direita: Sônia, Elizabete e
Suame
Parintins é a “capital” onde transpira
talentos, é tida como a cidade que possui mais artistas por metro quadrado, mas
a maioria homens que já tem seus nomes bem conhecidos até nacionalmente. Como
dom não escolhe sexo, algumas mulheres estão surgindo no cenário artístico e, mostrando
suas habilidades e técnicas no desenho.
As três artistas estavam lá, na Praça do Japonês,
sentadas no banco cheio de flores, próximo ao Liceu de Parintins, a instituição
que vem ajudando-as a evoluir na arte.
Elas representam, mesmo que no inconsciente,
uma gama de mulheres da cidade que praticam o desenho e querem conquistar seus
espaços, reconhecimento e por consequência o sucesso.
Ambas conheceram o desenho de forma distinta.
Elizabete Printes, 24 anos, entrou na arte do desenho através do namorado que é
artista do Garantido, se matriculou no Liceu e se apaixonou pelos desenhos.
Suame
Alfaia 20 anos, sempre desenhou desde de pequena, mas foi o irmão que a conduziu
para as aulas ainda no Instituto Raimunda de Paula Melo (Irapam), e depois para
o liceu com o professor Josinaldo Matos. Mas, teve que parar por um tempo
devido a faculdade de Nutrição, só que não era muito o que queria e acabou voltando
para o que gosta, o desenho.
Suame já aceita encomenda para fazer desenhos. Mas, encontra dificuldades de enviar para pessoas de fora que se interessam pelo seus trabalhos que apresentam uma qualidade incrível. Mesmo com a distância da um jeito de mandar suas obras para quem deseja, via internet e digitalizada.
Já Sônia
Mara Nascimento, a mais experiente em vivência das colegas, conheceu a arte
pela necessidade. Sempre esteve no meio, porém realizando outras atividades,
como crochê, pintura em guardanapo e costura de pastorinhas, mas, nunca com
desenhos, que necessitava para quase todas essas atividades. Devido a isso,
também procurou o curso no liceu e foi acolhida por Josinaldo que lhe ensinou
as técnicas necessárias. “Sempre quis fazer meus próprios desenhos, aí conheci
através do Cetam, onde pintava em pano, o Liceu de artes, onde estou a 2 anos
me aperfeiçoando”.
O
MENTOR
As idades são diferentes, com gerações que
cresceram em mundos distintos, porém com a mesma vontade que é o aprendizado da
arte, com o mesmo mestre, Josinaldo Matos, que vai além do professor de artes, transformando-se
em educador, segundo as artistas.
“A visão do professor Josinaldo vai muito
além da nossa ilha. Somos praticamente seus filhos. Ele batalha por nós”, fala
Elizabete Printes.
“Ele sempre deu um jeito de ajudar a gente. Disponibilizando,
seus materiais e o próprio ateliê para eu treinar. Emprestou tudo, desde de
tinta a tela.” confessa Suame.
Ele não é só professor. Também incentiva, é
um amigo. E um educador que quer ver o nosso futuro progredir”, completa Sônia.
AS
OPORTUNIDADES
O campo da arte em Parintins é muito
competitivo, não há uma preferência por trabalhos feitos por homens ou mulheres
no desenho como um todo, mas em alguns setores exigem muita força física (arte
em muros, pinturas de alegoria e etc), e nesse ponto as oportunidades diminuem
para as meninas, onde os homens tem a vantagem e acabam saindo na frente, muito
também, por causa de seus contatos e anos de experiência. Diferente das meninas
que estão a poucos anos praticando e não realizam esses trabalhos mais braçais,
que são mais requisitados em Parintins.
Nesse momento, Suame, que já recebeu até
proposta para trabalhar como desenhista no boi (acabou não indo por estar
fazendo faculdade no momento) está na área da caricatura, onde a concorrência é
forte, pôr a ver muitos profissionais excelentes. “Às vezes somos bem requisitadas, outras
passamos semanas ou meses sem receber encomendas para desenhar. ‘Muitos falam:
vocês vão passar fome se forem depender do desenho’. Não ligamos mesmo quando
falam que a arte não traz nada financeiramente pra nós. É o que gostamos e
pronto” relata a artista mais nova e talvez mais atuante do grupo.
Há também várias exposições, feita pelo
Liceu, que proporciona para as meninas a visibilidade, inclusive nacional, com
curadores vindo de grandes centros urbanos.
AS
SURPRESAS
A grandes espantos por partes das pessoas
quando recebem a notícia que mulheres desenham. “Fiz uma tela pro meu pai, para
uma exposição que aconteceu no fórum. A pintura se encontra em casa. Todo mundo
quando ver, pergunta quem fez a obra, imaginado que foi meu irmão, por ele também
ser artista. Mas, quando meu pai fala que foi a filha, todos ficam surpresos. E
quando me veem, aí que não acreditam mesmo” relata Suame.
Alguns ainda perguntam, “e sério mesmo que
foi tu que desenhou?”, fala Sônia quando olham suas obras.
A
EVOLUÇÃO E O QUE AS ATRAIU PARA ARTE
As meninas sempre gostam de se desafiar para
evoluir, sempre fazendo os desenhos mais difíceis e com grau de dificuldade
elevado. Suame, não fugiu à regra, está praticando o desenho aerógrafo (técnica
semelhante à grafite, mas com realismo). “Também sempre quis ser tatuadora, mas
ainda não segui, é uma meta minha. É uma parte da arte que gosto muito”,
completa a jovem artista.
Dessa forma, com muitos desafios, todas foram
atraídas ainda mais para arte, além do atrativo do boi bumbá.
Muitas querem ser itens (Porta-estandarte,
Sinhazinha, Cunhã-Poranga), mas as meninas não, querem concretizar sua arte.
Também pode ser o sangue parintinense carregado com o DNA artístico que as
chama para o oficio.
OBRAS DE SUAME










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