quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Mãos femininas parintinense na arte do desenho


“Algumas pessoas ficam bastante surpresos quando dizemos que fomos nós que desenhamos tais obras”, diz Elizabete. “Tenho um quadro em casa, que muitos duvidam que foi eu que desenhei e pintei. Quando me olham, aí que não acreditam mesmo, acho que é por causa do meu tamanho”, fala Suame com um sorriso. “Alguns ainda dizem: ‘É sério mesmo que foi tu que desenhou?’”, diz Sônia quando olham suas obras.

POR: JOSÉ BRILHANTE
Artistas da esquerda para direita: Sônia, Elizabete e Suame

Parintins é a “capital” onde transpira talentos, é tida como a cidade que possui mais artistas por metro quadrado, mas a maioria homens que já tem seus nomes bem conhecidos até nacionalmente. Como dom não escolhe sexo, algumas mulheres estão surgindo no cenário artístico e, mostrando suas habilidades e técnicas no desenho.
As três artistas estavam lá, na Praça do Japonês, sentadas no banco cheio de flores, próximo ao Liceu de Parintins, a instituição que vem ajudando-as a evoluir na arte.
Elas representam, mesmo que no inconsciente, uma gama de mulheres da cidade que praticam o desenho e querem conquistar seus espaços, reconhecimento e por consequência o sucesso.

 Elizabete com sua primeira obra em tela

Ambas conheceram o desenho de forma distinta. Elizabete Printes, 24 anos, entrou na arte do desenho através do namorado que é artista do Garantido, se matriculou no Liceu e se apaixonou pelos desenhos.
Suame Alfaia 20 anos, sempre desenhou desde de pequena, mas foi o irmão que a conduziu para as aulas ainda no Instituto Raimunda de Paula Melo (Irapam), e depois para o liceu com o professor Josinaldo Matos. Mas, teve que parar por um tempo devido a faculdade de Nutrição, só que não era muito o que queria e acabou voltando para o que gosta, o desenho. 
Suame já aceita encomenda para fazer desenhos. Mas, encontra dificuldades de enviar para pessoas de fora que se interessam pelo seus trabalhos que apresentam uma qualidade incrível. Mesmo com a distância da um jeito de mandar suas obras para quem deseja, via internet e digitalizada. 
Já Sônia Mara Nascimento, a mais experiente em vivência das colegas, conheceu a arte pela necessidade. Sempre esteve no meio, porém realizando outras atividades, como crochê, pintura em guardanapo e costura de pastorinhas, mas, nunca com desenhos, que necessitava para quase todas essas atividades. Devido a isso, também procurou o curso no liceu e foi acolhida por Josinaldo que lhe ensinou as técnicas necessárias. “Sempre quis fazer meus próprios desenhos, aí conheci através do Cetam, onde pintava em pano, o Liceu de artes, onde estou a 2 anos me aperfeiçoando”. 

O MENTOR
As idades são diferentes, com gerações que cresceram em mundos distintos, porém com a mesma vontade que é o aprendizado da arte, com o mesmo mestre, Josinaldo Matos, que vai além do professor de artes, transformando-se em educador, segundo as artistas.
“A visão do professor Josinaldo vai muito além da nossa ilha. Somos praticamente seus filhos. Ele batalha por nós”, fala Elizabete Printes.
“Ele sempre deu um jeito de ajudar a gente. Disponibilizando, seus materiais e o próprio ateliê para eu treinar. Emprestou tudo, desde de tinta a tela.” confessa Suame. 
Ele não é só professor. Também incentiva, é um amigo. E um educador que quer ver o nosso futuro progredir”, completa Sônia.

AS OPORTUNIDADES
O campo da arte em Parintins é muito competitivo, não há uma preferência por trabalhos feitos por homens ou mulheres no desenho como um todo, mas em alguns setores exigem muita força física (arte em muros, pinturas de alegoria e etc), e nesse ponto as oportunidades diminuem para as meninas, onde os homens tem a vantagem e acabam saindo na frente, muito também, por causa de seus contatos e anos de experiência. Diferente das meninas que estão a poucos anos praticando e não realizam esses trabalhos mais braçais, que são mais requisitados em Parintins. 
Nesse momento, Suame, que já recebeu até proposta para trabalhar como desenhista no boi (acabou não indo por estar fazendo faculdade no momento) está na área da caricatura, onde a concorrência é forte, pôr a ver muitos profissionais excelentes.  “Às vezes somos bem requisitadas, outras passamos semanas ou meses sem receber encomendas para desenhar. ‘Muitos falam: vocês vão passar fome se forem depender do desenho’. Não ligamos mesmo quando falam que a arte não traz nada financeiramente pra nós. É o que gostamos e pronto” relata a artista mais nova e talvez mais atuante do grupo.  
Há também várias exposições, feita pelo Liceu, que proporciona para as meninas a visibilidade, inclusive nacional, com curadores vindo de grandes centros urbanos.

AS SURPRESAS
A grandes espantos por partes das pessoas quando recebem a notícia que mulheres desenham. “Fiz uma tela pro meu pai, para uma exposição que aconteceu no fórum. A pintura se encontra em casa. Todo mundo quando ver, pergunta quem fez a obra, imaginado que foi meu irmão, por ele também ser artista. Mas, quando meu pai fala que foi a filha, todos ficam surpresos. E quando me veem, aí que não acreditam mesmo” relata Suame.
Alguns ainda perguntam, “e sério mesmo que foi tu que desenhou?”, fala Sônia quando olham suas obras.

A EVOLUÇÃO E O QUE AS ATRAIU PARA ARTE

As meninas sempre gostam de se desafiar para evoluir, sempre fazendo os desenhos mais difíceis e com grau de dificuldade elevado. Suame, não fugiu à regra, está praticando o desenho aerógrafo (técnica semelhante à grafite, mas com realismo). “Também sempre quis ser tatuadora, mas ainda não segui, é uma meta minha. É uma parte da arte que gosto muito”, completa a jovem artista.
Dessa forma, com muitos desafios, todas foram atraídas ainda mais para arte, além do atrativo do boi bumbá.
Muitas querem ser itens (Porta-estandarte, Sinhazinha, Cunhã-Poranga), mas as meninas não, querem concretizar sua arte. Também pode ser o sangue parintinense carregado com o DNA artístico que as chama para o oficio.


OBRAS DE SUAME












OBRAS DE ELIZABETE





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