POR: JOSÉ BRILHANTE
Sempre foi uma comunidade
pacata nas cabeceiras do Uaicurapá, com lindas praias no verão e, pescadores em
suas canoas buscando aquele almoço e jantar. Uma caça aparecia, e o cardápio
mudava, porém, os tempos de abundancia tinham se esvaído. Suas casinhas ficavam
lá em cima, em terra firme, como chamam os antigos. Para chegar, tinha que
enfrentar uma escadaria gigante, sem fim.
Uma vez ao ano a festa do
santo acontecia. Era o evento mais esperado. Os “cabocos” vestiam as melhores
roupas e os perfumes mais cheirosos, para tentar conquistar as ribeirinhas.
Toda a igreja ficava
ornamentada com bandeirolas coloridas. A
comunidade ficava animada, principalmente com os preparos das guloseimas, vendas
de bingos e pratos sortidos.
A pastorinha era de lei,
e quase todo mundo fugia da cigana, mas todos se “achegavam” a dança com música
ao vivo. Após aproveitarem bem, cada um procurava sua turma e geralmente
findava a noite com uma cachaça na praia.
Com Raimundinho não foi diferente,
bebia álcool como água e, acabou aceitando fazer uma saideira com colegas que
ainda não tinha visto pelas redondezas. Até aí nada de anormal em tempo de
festa.
Lá pelas tantas, com
todos já embriagados, um dos companheiros de bebedeira, resolveu se refrescar
na água. Com o álcool acima, nenhum dos colegas se opôs, inclusive Raimundinho,
que até incentivou o camarada ao refresco. Ele mesmo, só não foi porque não
conseguia nem se levantar. Só se mexia com muita sonolência, para ouvir depois,
gritos bem leves.
O recém colega que estava
em apuros, de relance, desesperado, viu Raimundinho se mexer, gritou por
socorro a ele, com último fôlego, mas não ouve resposta. Com a adrenalina, o álcool
evaporou da corrente sanguínea, percebendo assim que não sabia nadar, e poderia
morrer.
Lucas, começou a se
debater na água, para encontrar algum apoio e salvar a própria vida, porque os companheiros
em terra, estavam todos adormecidos, não sabendo distinguir o que era vento ou uma
pessoa se afogando.
Com o raiar do dia.
Organizadores da festa, iam acordando os bêbados e recolhendo o lixo da praia, até
encontrarem um corpo boiando, indo e voltando na correnteza do rio, todo
inchado e comido por alguns peixes.
A pele do morto (Lucas)
boiando, ficou toda roxa. O rosto estava desfigurado com o crânio amostra. Os
peixes carnívoros (piranha e etc) que habitavam a região, tinham rapidez e fome
voraz. Os olhos estavam saltados para fora, esbranquiçados pela água. A cena
típica hollywoodiana de terror estava materializada na realidade.
Após verem o morto, gritos
de “ele está morto, ele está morto. Está
boiando meu Deus. Os olhos estão para fora”, acabaram acordando o resto do
pessoal que se encontravam “desmaiados”. O grupo quase automaticamente fez a contagem
e faltava um dos colegas, o rapaz da cidade que estava passando a semana
naquele interior. E para descobrirem quem foi a vítima, fizeram apenas uma
constatação: “É o Lucas”.
Raimundinho, após passar
o susto, ficou refletindo! Poderia ter ajudado o finado, ainda em vida, porque
talvez tenha sido o único a ouvir os pedidos desesperados de Lucas. Contudo, o rapaz
já estava morto e, não podia fazer mais nada para acalmar a consciência.
Para contribuir com sua
aflição, os dois dias seguintes não foram muito bons. Estava se culpando. Mas,
ao saber do enterro de Lucas (o finado), Raimundinho por incrível que pareça,
ficou em paz.
Como tradicional “caboco”
ribeirinho, recompunha suas energias na rede. Quando estava num sono pesado e
tranquilo, começou a sentir um forte odor de enxofre misturado com podridão e,
um grande calafrio. De imediato, o corpo começou a reagir, fazendo-o despertar.
Era o que parecia para ele.
Quando abriu os olhos, estava
um homem de preto, todo molhado, com o rosto escondido por uma sombra nada
reveladora, velando seu sono. O misterioso olhava fixamente para seu rosto, com
aquele cheiro fétido, exalando no ar. Nesse instante o corpo começou a tremer, da
ponta do dedão do pé, até os fios de cabelo, perdendo em seguida suas coordenações.
Os braços e pernas não
conseguiam responder ao comando do cérebro, e tudo que poderia fazer, era
tremer. Até o ainda místico, soltar uma frase e deixar aparecer, na vista de
Raimundinho, os dentes de fogo, parecendo brasas ardentes.
- Eu te pedi ajuda, sei que tu ouviu - disse o homem para o aterrorizado.
Quando escutou a primeira
palavra, o paralisado Raimundinho viu de onde vinha o cheiro no ar. A sombra se
dissipou e, a metade do rosto do “dito cujo”, estava comido, com os olhos para
fora, do mesmo jeito que encontraram Lucas.
Mudo, o amedrontado já
sabia quem era, tentava ficar em pé a todo custo, mas o corpo continuava rígido
dentro da rede. E quando escorria lágrimas pelo rosto, a visagem, baforando
fogo, gritou mais uma vez, já pulando no pescoço de Raimundinho, que só fazia
se debater, curiosamente como Lucas no momento da morte. “Você
deveria ter me ajudado, para eu não morrer, agora vou te levar comigo”,
dizia o fantasma se deliciando com o desespero da vítima.
Percebendo que estava em apuros, Raimundinho, começou
a orar com as mãos gigantes em seu pescoço. Sentia a agonia, mas não sabia que
aquilo era real. Em seguida, os músculos foram relaxando e as condições de
lutar contra a situação apareceu.
Com o corpo molhado de
suor e o pescoço cheio de marcas vermelhas, o ribeirinho pinguço, desvencilha-se e se liberta, vendo o
fantasma desaparecer por entre a escuridão.
Raimundinho assustado,
logo que amanheceu, foi procurar o curador da comunidade, para receber umas benzeduras
e, tentar não ser visitado de novo pelo “Demo”, como ele falava. Desde lá nunca
mais foi visitado pelo além.

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